Objectivo

Pretende-se com este blog, abrir um espaço de estudo e debate sobre o templarismo em Portugal nos dias de hoje.
Mito ou Realidade?
Existem em pleno séc. XXI?
Qual a sua linhagem?
Qual a sua missão?

Non Nobis, Dominie, Non Nobis, Sed Dominie Tuo da Gloriam

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Solstício de Verão - Contributo Margarida Oliveira

SOL

Divindade envolta num profundo mistério relacionado com os fenómenos vitais.
Símbolo da libertação da opressão invernal que submerge, os países setentrionais e circumpolares, num longo e escuro período de esterilidade. É o pêndulo do relógio que marca as horas do princípio e do fim das estações do ano.
No seu curso crescente, iniciado logo após a noite mais longa do Solstício de Inverno, o Sol vai abrindo brechas na penumbra até à sua consagração no Solstício de Verão. Vários povos representam esta viagem, de vida, morte e renascimento, em expressivas espirais solares crescendo a partir do estado de recolhimento, expandindo no zénite estival e inflectindo, ao ponto original, imitando o minguar do Sol com a aproximação do inverno.
Os ciclos naturais, celebrados desde tempos imemoriais, expressam uma matemática simbólica ao assinalarem a alternância das núpcias cósmicas entre a  bênção do céu e a generosidade da terra.
O Calor do Sol assemelha-se ao Calor Ígneo: ambos inacessíveis e incomportáveis, ambos imprescindíveis à sobrevivência. O fogo purifica e transforma. O Sol injecta nos solos o pulsar criador.

LITHA
Solstício de Verão:
Regresso do esplendor aos céus e da vida ao ventre da Mãe-Terra.
Hoje, 21 de Junho de 2011, às 17h16min, o Sol entrou em Caranguejo, signo regido pela Lua e pelo elemento água, associado à sensibilidade, à família e à emoção. Hoje, no Hemisfério Norte, celebra-se o início do Verão.
Festa SOLAR
Celebração elementar do FOGO.
O Deus Sol no auge...
As flores, as árvores, o verde em todo o esplendor...
Cernunos, o Deus Cornudo, em toda a plenitude, maduro e feliz.
A Deusa, fecundada no Beltane (01 de Maio) está grávida e assume os atributos de Deusa Mãe.
No dia mais longo do ano a luz prevalece sobre a escuridão garantindo poder e protecção. Celebra-se a abundância. Celebra-se a Vida
Outras denominações existem para este festival:
·       CoamHain - Midsummer (“meio do verão” iniciado a 1 de Maio com as festividades do Beltane)
·       Alban Heffin” (designação druídica) “Luz da Costa” ou “Luz do Verão”, fazendo alusão ao triunfo da luz sobre as trevas.
Sob o efeito excitante do Verão, a alegria apodera-se das gentes. As consciências descontraem-se, num estado de alucinação sensorial e sensual.
É no estio que os dias adquirem especial poder, descrito por Rudolph Steiner como o  phosphoro alquímico, invisível da atmosfera”, através do qual  entidades oriundas dos mundos estelares entram no nosso organismo etéreo, tornando-o permeável a forças cósmicas necessárias à celebração da metamorfose da alma”.
Todavia é também hoje que o pico de luz entra em declínio culminando no Samhain, Halloween ou Alban Arthan  recordando ao homem o quão transitória é a existência.
Lendas, rituais, sítios e tradições seculares associam-se ao Solstício de Verão, testemunhando a sua relevância cerimonial:
·       Monumentos megalíticos alinhados, nos solstícios, com o nascer e o pôr do Sol...
·       Colheita, partilha e secagem de ervas medicinais e aromáticas que, pela conjuntura astral, estão agora nutridas do máximo poder curativo, alquímico e mágico do SOL...
·       Banhos purificadores e curas milagrosas ocorridas em rios, fontes e cascatas...
·       É nesta noite a seiva das árvores está vivaz. Escolhem-se os ramos para as varas de condão, usadas pelos celtas em círculos cerimoniais e rituais de cura enquanto canalizadores de energia.
·       O sonhado, desejado ou pedido na noite de Litha realizar-se-á...
·       Esta noite que Puck, Pan, Elfos, Fadas, Duendes e Gnomos correm pelos campos e florestas sendo facilmente avistados e contactados...
·       Os Druidas veneram Ogham Duir, o Carvalho. Árvore nobre, símbolo de força, sabedoria e iluminação, pelo crescimento lento, como lenta é a maturação do espirito. A elevada densidade da sua madeira corresponde à solidez espiritual adquirida ao longo do caminho. O Carvalho está também associado à iluminação devido ao especial tropismo dos relâmpagos por esta árvore.
·       Rituais de Fogo e Água remontam a ancestrais tradições pagãs, egípcias, gregas, celtas e bárbaras: Rituais de fogo representando o poder fecundador encarnado no Deus Cornudo; Rituais de água representando a fertilidade de Deusa e simbolizados pelo caldeirão de Ceridwen.
Ânima Lusa:
Encontramos hoje os ecos cristianizados de antigas tradições pagãs nas celebrações do advento do verão, do Solstício e nas que decorrem ao longo de todo o estio.
Alguns autores afirmam que a tradição dos ritos solares foi trazida para a Península Ibérica pelos árabes (acender fogueiras ainda é uma prática comum em Marrocos e na Argélia). Todavia, nas nossas festas e romarias é, também, evidente a influência celta, visigótica e xamânica.
Hoje, em Portugal, inicia-se um ciclo de dias longos e noites curtas, plenas de eflorescência azulada mimetizando uma extensão dos dias. Estas noites luminosas são realçadas pelas fogueiras e os balões iluminados das festas populares que por estas paragens honram Santo António, São João Baptista e São Pedro, numa espécie de celebração da tríplice, solar e masculina.
Em Junho e Julho, abarcando todo o período do signo de Caranguejo, Portugal está cheio de festividades que pontuam pela cor, luz, alegria e sedução amorosa.
Manjerico, alecrim, funcho, tomilho, verbena, alho-porro, camomila, girassol... Ervas aromáticas, curativas, mágicas, alusivas ao Sol, ervas que nos inspiram e embriagam o espírito
Igrejas, altares, janelas, ruas e gentes vestem-se de branco, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho.
O fogo é vivificado, numa reverência dionisíaca ao FOGO SOLAR iluminando o céu e a terra:
Pelas fogueiras que, se saltam para espantar o infortúnio e a negatividade, feitas na rua e à porta de casa, purificam e abençoam quem à sua volta dança e histórias conta;
Pelos balões coloridos e iluminados que, pendurados em arcos ou lançados ao céu, simbolizam estrelas cadentes na escuridão nocturna.
Estes são ritos propiciatórios do Fogo, que até ao Equinócio de Outono, ganha força sob a forma de calor, compensando o progressivo declínio da luz
Mas a Tradição Mágica Lusitana não se fica pelo FOGO e o Masculino, reverencia também a ÁGUA e o Feminino:
 Água da meia-noite, a “água nova” renovadora e mágica e a Água da Alvorada. E por isso se dança até ao romper da aurora, para que o Orvalho nos banhe e assim celebremos um novo ciclo anual.
A sardinha, prateada e vivaz, simboliza as águas correntes e a Lua. Abundantemente consumida nas festas de verão equilibra o Sol, a ele se une e fortifica o Homem balanceando a dualidade sexual. E... é esta união cósmica e ritual do Sol e da Lua que inspira a tradição casamenteira da quadra.
O casamento romântico dos enamorados e o casamento com Fadas ou Mouras Encantadas simbolizando o tradicional ritual de passagem.
Mouras Encantadas que protagonizam inúmeras lendas do cancioneiro popular Análogas de Artemisa, de Östara, Deusa Regeneradora dos Visigodos, e da Serpente Guardiã da lenda nórdica de Thora.
Durante o resto do ano as Mouras Encantadas estão adormecidas ou transformadas em serpentes. No Equinócio da Primavera e no Solstício de Verão aparecem em penedos remotos, bosques densos, fontes e ribeiras, como belas donzelas, virgens de longos cabelos dourados e de branco vestidas.
Possuindo dons curativos e poderes mágicos que apaziguam as almas, fazem nascentes brotar e ouro gerar, as “Senhoras Brancas”, vão propondo casamento aos passantes e premeiam, com felicidade e prosperidade, o corajoso jovem que se aventure as desposá-las libertando-as do encantamento. Esta valência feminina, mágica e sagrada na tradição nacional é tão importante que, esta quadra solsticial, inaugura uma série de festividades alusivas a “Nossa Senhora”, que se prolongam por todo verão e se celebram em santuários arborizados e luxuriantes, localizados frequentemente em montes e sítios ermos, de difícil acesso.
Portugal transporta um passado ancestral e mítico de união com a Natureza sendo disso testemunha o nosso folclore que remanesce como um reservatório de cultos e tradições que, embora esmaecidos por imposições dogmáticas, vão permanecendo nas romarias e festas sazonais.
EPÍLOGO
Aos Solstícios não ficam alheias as nossas consciências colectiva e individual.
São ancestrais os festivais solares, enquanto representações da fusão dos Espíritos Superior do Sol, do Deus Cornudo e do Homem. Já os gregos chamavam “Apolo de Chifres” ao “Espírito Invisível do Sol” espelhando aquela interpenetração.
Reflectindo os ciclos sazonais, de fertilidade e esterilidade, e estimulando as forças sobrenaturais da personalidade, a Celebração Solar desperta a nossa consciência atávica pois não só objectiva a sintonia com a Natureza, mas também a Experiência Mística que profetiza, na metamorfose da Terra, a potencialidade para a transformação do Homem
Onde o Deus e a Deusa se Unem
Em Perpétuo Amor e Fecundidade
Nasce a Fertilidade e a Sabedoria




quinta-feira, 23 de junho de 2011

Despertar de Consciências - Contributo de António Cardoso


A consciência é uma qualidade da mente que pertence à esfera da psique humana, por isso diz-se também que ela é um atributo do espírito, da mente, ou do pensamento.
Consciência, no aspecto moral, é a capacidade que o homem tem de conhecer não apenas os valores e mandamentos morais, mas também de aplicá-los nas diferentes situações, no testemunho do nosso espírito, aprovando ou reprovando os nossos actos, o cuidado escrupuloso, a honra, a rectidão e o conhecimento de si mesmo, dos seus actos, dos outros, da natureza, do Universo e de Deus.
A consciência divide-se em consciência fenomenal, que é a experiência propriamente dita, o estado de estar ciente, e consciência de acesso, que é o processamento das coisas que vivenciamos durante a experiência, o estado de estar ciente de algo.
Consciência pressupõe autoconsciência. Não há como alguém estar consciente de alguma coisa, sem estar consciente de estar consciente, dessa coisa.
A autoconsciência é pré reflexiva. Se a autoconsciência fosse o resultado da reflexão, só teríamos autoconsciência após termos consciência de alguma coisa, que fosse dada à reflexão, o que não pode ser o caso, pois, consciência pressupõe autoconsciência. Logo, a autoconsciência é anterior à reflexão.
O autoconhecimento, isto é, a consciência reflexiva ou consciência de segunda ordem, pressupõe a consciência pré reflexiva, isto é, a autoconsciência.  
Quando se actua contra a consciência, ataca-se a parte mais íntima e delicada do Homem: o delicado sistema que o torna livre. Se nos acostumamos a agir contra a consciência, esta deteriora-se: perdemos a luz que nos permite ser livres, ficando à mercê das forças irracionais dos instintos ou da pressão exterior.
Não se deve obrigar o Homem a agir de modo contrário à sua consciência. Mas isso não quer dizer que todas as decisões tomadas em consciência sejam correctas, ou que todas as decisões tenham o mesmo valor. Podemos reprimir os seus actos, não devemos atingi-lo nas suas crenças, pois estas são íntimas e inacessíveis.
Deve respeitar-se a liberdade das consciências, isto é, respeitar o processo pelo qual cada Homem pensa.
O despertar da consciência depende da descoberta e compreensão da identidade individual, como forma de afirmação do Homem.
O percurso deve ser individual, no descobrimento e libertação do Eu interior, dos pensamentos e acções que se encontram sufocados pelo Eu exterior, que age em consonância com o que o rodeia, “quase” obrigado a não ver, a não reflectir e a não agir por si, entrando num estado de adormecimento, vivendo consciências que não a sua.
O Homem revê-se em si próprio, mas não se reconhece, nas formas de crer, estar e agir, que não são suas, mas aceita, pratica e consolida-as. O conhecimento é limitado, condicionado pelo que lhe é dado a ver.
Só errando apreendemos, e perdendo-nos achamos o caminho… mas só se for essa a nossa vontade.
A liberdade de consciência, é uma das características do Cavaleiro e do seu progresso.

Solstício - Contributo de Margarida Ivo da Silva


O Homem tem desde sempre a percepção consciente da influência dos astros sobre a natureza e a sua prória biologia, das suas transformações ciclicas e da interação entre os opostos, presente em todas as manifestações da vida. A vida nasce na terra e da terra e a energia que a comanda irradia do sol. A vida termina com a morte e o dia com a noite. Nascem novas vidas da união dos opostos feminino e masculino e novos dias num movimento ciclico infinito.
Solstício, refere-se ao momento em que o eixo terrestre se encontra no seu ponto de inclinação máxima, incidindo o sol perpendicularmente a um dos trópicos. Mantem esta declinação de cerca de 23°27’ durante 3 dias até iniciar o seu movimento de declinação em sentido contrário. Por este motivo “solstício” significa “sol parado”. No solestício de Verão o sol incide perpendicularmente ao trópico de caranguejo, ocorrendo deste modo o dia mais longo e a noite mais curta no hemisfério norte e o oposto no hemisfério sul.  Em seguida, com a declinação do eixo terrestre em sentido contrário inicia-se o periodo da crescente escuridão. As trevas crescem sobre a luz, os dias são mais curtos e as noites mais longas, passando pelo equilibro no equinócio e culminando no solestício de Inverno. 
O solstício de Verão marca também o ponto em que o sol se encontra mais afastado da terra na curva eliptica, ou seja, mais luz mas com menos intensidade, começando a intensificar-se os seus raios à medida que caminhamos para o equinócio de Outono até ao solstício de Inverno. Observa-se então a noite mais longa mais e o periodo de iluminação mais curto mas mais intenso, a maior proximidade ao sol. 
A percepção e o conhecimento destas transformações  remonta tanto quanto se sabe ao neolitico e ao longo da história houve uma divinização destes dois polos terra/sol e dos fenomenos naturais criando-se mitos explicativos da interação entre eles e dos fenómenos biológicos e ciclicos.
No antigo egipto a astronomia, o ciclo solar e os fenómenos naturais divinizados, determinavam não só o calendário como também toda a organização social, religiosa e arquitetónica. O calendário correspondia ao ciclo solar e terminava com o solstício de Verão,o dia mais importante. Era a  altura em que não só se festejavam as colheitas, como também a subida das águas do Nilo que iria fertilizar a terra para o ano seguinte. Era a festa do Sol e da Luz mas também a festa da Grande Deusa Isis e da água fertilizante e renovadora.
Os povos pagãos festejavam-no com o tributo às divindades naturais, ao Deus Sol e à Deusa Mãe Terra. O dia da grande festa da Terra e do seu produto mas também do inicio de declinio do Sol. O Sol casaria com a Terra consumindo-se nela para a fertilizar até ao solestício de Inverno. A entrada nas trevas, no interior da Terra, intensificando-se nela à medida que se aproxima, gerando nova vida no ciclo seguinte. Na cultura Wicca considera-se o solestício como um dia com poderes mágicos preconizando-se rituais mágicos e queima de ervas com pedidos para o novo ciclo. O uso das fogueiras, em representação do Sol e para afastarem maus espiritos, tem persitido até aos nossos dias com celebrações com danças à volta das fogueiras e saltos sobre o fogo em rituais de fertilização e de adivinhação, até estas se consumirem completamente. No Litha da cultura Wicca, utilizam-se as cinzas daí resultantes como amuleto.
As festas pagãs fundiram-se em todo o mundo, com as festas Joaninas tornando-se num folclore associado à celebração do dia de S. João Batista.
Com o cristianismo, a celebração do nascimento de S. João Batista, dia  próximo do solestício de Verão, trouxe uma dimensão espiritual ao ciclo biológico. O Batismo pela água como fonte renovadora e o anuncio da vinda da Luz interior, do Amor, a vinda de Cristo. A nova fase de introspecção passou a ser simbolizada pelo decrescer dos dias ou seja da Luz perceptivel e pelo crescimento da sua intensidade, não visivel ou interior, marcada pela aproximação da Terra ao Sol. 
Esta dualidade matéria e espirito, ambas dimensão do homem que se manifesta e que não se manifesta, dependente das energias telúricas do Sol, dos Elementos, dos Astros, da Terra, estão presentes desde sempre na nossa consciência por vezes de uma forma adormecida. A sua consciencialização e a aspiração à vida cria a necessidade do dominio de ambas e do crescimento individual em equilibrio.
Se imaginarmos este ciclo solar como o simbolo do infinito e o dividirmos a meio, representado numa linha infinita de ciclos, obtemos uma curva semelhante a uma onda electromagnética que progride entre dois extremos opostos passando pela linha basal, o equilibrio, sem nunca parar nele. Ou seja, o movimento da vida caminha entre as mudanças de sentido, os opostos ou ainda os pontos de crise, os extremos.  Ainda que sejam crises solares, elas repercutem-se no nosso espirito e na nossa biologia, sendo por isso momento de desejarmos retomar um novo e melhor rumo com fertilidade individal e colectiva. No solestício de Verão ou dia de S. João Batista, temos a esperança da perenidade material e espiritual com um crescimento individual e colectivo para os quais devemos caminhar neste ciclo de renovação permanente, baptizados e renovados pela água e pelo fogo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Reconhecimento da Ignorância - Contributo de António Cardoso

A ignorância é a falta de conhecimento, sabedoria e instrução sobre determinado tema, ou mesmo crença em falsidades, ou ainda de uma forma menos pratica pode significar uma forma rude de tratar as pessoas e/ou coisas.
Na história da humanidade, a ignorância, seja a ingénua, seja a mal intencionada, tem sido responsável por muitas tragédias… das epidemias às guerras
A ignorância, não permanece estável, evolui. Nasce como pura falta de conhecimentos, mas transforma-se em incapacidade e por fim em recusa absoluta de adquiri-los, mesmo quando disso dependa a sobrevivência do interessado. Começa como um estado natural, e transforma-se numa requintada forma de perversidade.

Em psicologia social, ignorância pluralística, conceito criado em 1924 por Floyd Henry Allport, é um processo que envolve vários membros de um grupo que pensam possuir percepções, crenças, ou atitudes diferentes do restante do grupo.
Apesar de não apoiarem a norma do grupo, os dissidentes comportam-se como os outros membros, porque pensam que o comportamento dos outros componentes demonstra que a opinião do grupo é unânime.
Por outras palavras, visto que aqueles que discordam se comportam como se concordassem, cada um dos dissidentes imagina que a norma é aprovada por todos os outros membros, menos por ele mesmo. Isto, por sua vez, reforça o desejo de conformar-se à norma do grupo em vez de expressar discordância. Por conta da ignorância pluralística, as pessoas podem conformar-se com a opinião consensual percebida num grupo, em vez de pensar e agir sob as suas próprias perspectivas.
A ignorância pluralística explica parcialmente o "efeito espectador", a observação de que é muito mais provável que as pessoas intervenham numa emergência quando estão sozinhas do que quando outras pessoas estão presentes.

A ignorância é cega, não é capaz de ver a verdade, a liberdade, a construção de um novo mundo. A ignorância é prepotente, mas termina por ser transformada, pois só o conhecimento e o amor são capazes de transformar ignorância em sabedoria, e a sabedoria é luz.

A ignorância – ou, a consciência da nossa própria ignorância - não nos é dada gratuitamente, a ignorância tem um preço. Não a ganhamos, conquistamo-la. Como tudo o que tem algum valor na vida, também a obtenção da ignorância exige esforço, paciência e dedicação. Pois ocorre que nos é muito mais natural acreditar do que duvidar. A nossa tendência é acreditar que as coisas de facto sejam como elas de início nos parecem ser. A dúvida acerca dessa primeira aparência pode surgir de diversos modos, e um desses modos é o modo filosófico.

O exercício da dúvida, é o instrumento indispensável que nos permite eliminar os fragmentos do pseudo – conhecimento, reunidos ao longo dos anos que enchem a nossa mente. É o exercício da dúvida que nos permite alcançar a ignorância.

Parte considerável dos esforços dos filósofos, é dedicada à tarefa de obter essa autêntica ignorância. Pois a fonte do pseudo - conhecimento é a pseudo -ignorância.

A pseudo - ignorância é o resultado da tentativa insuficiente e fracassada em eliminar as crenças irracionais que se acumulam no nosso espírito. Diante desse fracasso, continuamos a sustentar ideias infundadas, e a guiar as nossas acções com base em pontos de vista que, ao fim e ao cabo, não têm sustentação racional. E tudo isto porque desde o início falhamos na tarefa de desmascarar a nossa própria ignorância.
Só aquele que tem consciência da sua própria ignorância procura o saber. Aquele que julga que tudo conhece, contenta-se com o saber que possui. Os sofistas que tudo afirmam saber, são os mais ignorantes de todos, dado que desconhecem a sua própria ignorância.

Esta ignorância não é absoluta mas é sim uma douta ignorância (ignorância sábia).

A douta ignorância, não é mais do que a consciencialização do pouco que se sabe face à imensidão do saber. Ela é uma ignorância construtiva porque tem por objectivo atingir a verdade e porque não parte nunca da estaca zero. Assim, estamos perante um movimento dialéctico.
Aristóteles, diz-nos que a Filosofia começa com o espanto, com o reconhecimento da ignorância. De facto, quem reconhece a sua ignorância, não admite ficar nessa condição, uma vez que a ignorância é, no fundo, a incapacidade de dar sentido à vida e ao universo.
Quando reconhecemos a nossa ignorância e tomamos a decisão de procurar a verdade, e nada mais do que a verdade, a inveja, o medo e a culpa esfumam-se e deixam na nossa mente uma confiança renovada na nossa capacidade de resolver os problemas que a vida nos colocar.

Segundo Platão, ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que não a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância mantém-se em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber.

Segundo Socrates, consciência de si mesmo quer dizer, antes de tudo, consciência da própria ignorância inicial e, portanto, necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. Esta ignorância não é, por conseguinte, cepticismo sistemático, mas apenas metódico, um poderoso impulso para o saber. Ficou célebre a sua afirmação: "Só sei que nada sei".
A procura do saber é indissociável também do conhecimento de nós mesmos. Daí o facto de Sócrates ter tomado como seu lema, a divisa do templo de Delfos: Conhece-te a Ti Próprio. Contra um conhecimento revelado a partir do exterior, Sócrates, aponta para um que se revela a partir da auto-descoberta do próprio indivíduo.
Na voz de Sócrates, os homens vivem desde a infância num estado de ignorância, como se estivessem no interior de uma caverna, acorrentados, "de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois, as correntes impede-os de voltar a cabeça".

É a ignorância profunda que inspira o tom dogmático. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de aprender; aquele que sabe muito mal chega a pensar que o que diz possa ser ignorado, e fala com maior indiferença. As maiores coisas só precisam de ser ditas de forma simples, elas estragam-se com a ênfase, é preciso dizer nobremente as pequenas, elas só se sustentam pela expressão, pelo tom e pela maneira.

É a partir da ignorância que avançamos para o conhecimento, temos que descobrir primeiro a natureza secreta e a extensão total da ignorância. Se observarmos essa ignorância na qual normalmente vivemos pela própria circunstância da nossa existência de ruptura num universo material, espacial e temporal, vemos que no seu aspecto mais obscuro ela possui, o carácter de uma ignorância multiforme:

A ignorância original - Somos ignorantes do Absoluto que é a origem de todo ser e de toda a mudança. Consideramos os factos parciais do ser, e as relações temporais da mudança como a verdade total da existência;
A ignorância cósmica – Somos ignorantes do Eu não espacial, intemporal, imóvel e imutável. Vemos a constante mobilidade e mutação da mudança cósmica no tempo e no espaço, como a verdade completa da existência;

A ignorância egoística – Somos ignorantes do nosso Eu universal, da existência cósmica, da consciência cósmica, da nossa unidade infinita com todo ser e toda a mudança. Consideramos a nossa mentalidade, vitalidade e corporalidade, limitadas e egoísticas, como o nosso Eu verdadeiro;

A ignorância temporal – Somos ignorantes da nossa eterna mudança no tempo. Consideramos esta pequena vida num breve espaço de tempo, num ínfimo campo do espaço, como nosso princípio, meio e fim;

A ignorância psicológica – Somos ignorantes do nosso vasto e complexo ser, daquilo em nós que é supra consciente, subconsciente, intraconsciente, circunconsciente em relação à nossa mudança de superfície. Consideramos essa mudança superficial, com a sua pequena selecção de experiências abertamente mentalizadas, como a totalidade da nossa;

A ignorância constitucional – Somos ignorantes da verdadeira constituição da nossa mudança. Consideramos a mente, ou a vida ou o corpo ou uma combinação de dois deles ou dos três, como o nosso verdadeiro princípio ou a explicação completa do que somos, perdendo de vista aquilo que os constitui e determina por sua presença oculta;

A ignorância prática – Como resultado de todas estas ignorâncias, nós perdemos o verdadeiro conhecimento, domínio e gozo da nossa vida no mundo. Somos ignorantes no nosso pensamento, vontade, sensações e acções, damos respostas erradas ou imperfeitas a cada passo, e em cada aspecto às questões do mundo, vagamos num labirinto de erros e desejos, lutas e fracassos, dor e prazer, pecados e tropeços, seguimos um tortuoso caminho, andamos às cegas em busca de um objectivo mutável.

A concepção da ignorância, determinará necessariamente a concepção do conhecimento e determinará, portanto, uma vez que a nossa vida é a ignorância que ao mesmo tempo nega e busca o conhecimento, a meta do esforço humano e o propósito do trabalho cósmico.

Segundo alguns autores - neste caso desconhecido - o mal da ignorância é que vai adquirindo confiança à medida que se prolonga, e muitos homens passam por sábios, graças à ignorância dos outros

Enfim, o valor da ignorância é extraordinário. Defrontar a autêntica ignorância, único terreno sobre o qual o autêntico conhecimento pode ser construído, é um empreendimento indispensável e virtualmente interminável. O mundo oferece-nos constantemente ideias enganosas das quais precisamos depurar-nos e essa depuração não é um trabalho do qual possamos dar conta sem esforço e método. Ter constantemente presente a necessidade deste trabalho e lembrar aos demais disto, com uma persistência que beire a provocação – como o fazia o próprio Sócrates – pode ser uma boa maneira de se começar a deixar de ser ignorante.

António Cardoso

domingo, 22 de agosto de 2010

O Espirito Templário não Morreu - Contributo de Flora Guerreiro

Os templários, homens e mulheres - e mulheres em plena igualdade com os homens, como cavaleiras e monjas - não são um mito, são uma realidade e uma realidade adaptada a este século. Apesar da suspensão da Ordem, o espírito do Templo não morreu. Este continua bem vivo e a exercer a sua influência. Os Homens podem fazer o que quiserem, mas a vontade dos Homens é efémera. Já o mesmo não se pode dizer da vontade de Deus. Essa é eterna e para Deus os Templários nunca foram suspensos. Deus continua a fazer o seu chamado, depois, caberá às pessoas segui-lo ou não. O Templo com toda a sua mística, ideal, força e coragem jamais podia perecer. O Templo será eterno enquanto existirem pessoas dispostas a serem guerreiros, pessoas dispostas a lutarem, com convicção, pelo ideal de Cristo, por um mundo a todos os níveis mais evoluído, onde o Homem seja capaz de respeitar a sua dignidade integral - física, mental e espiritual - e a do seu semelhante. Já não há Templários no Convento de Cristo ou em Jerusalém, mas por outro lado, há templários um pouco por todo o lado: nas escolas, ruas, empresas deste e doutros países. E que falta nós fazemos. Para levar a luz, a liberdade, a fraternidade, a igualdade, onde, por vezes, só existe caos e exploração. Ao contrário do que dizem, o Templo de hoje não é uma invenção medíocre de uns quantos sonhadores, mas um chamado, uma vocação tão profunda e verdadeira como aquela que se vivia na Idade Média. 
Non Nobis, Dominie, Non Nobis, Sed Dominie Tuo da Gloriam.
 Flora Guerreiro

quarta-feira, 24 de março de 2010

O que é ser Templário hoje, Uma visão no Feminino - Contributo de Perpétua Rocha

O século XXI será tempo de aproximação de povos e religiões, de solidariedade e partilha, de desenvolvimento do colectivo ou pelo contrário de conflito e luta pelo poder resultado de uma estratégia de engenharia financeira promovida por grupos restritos ancorados na ganância do poder? Que papel para uma Ordem como a Ordem Templária no contexto da visão estratégica e política que o Mundo actual adoptou com a designação de Globalização?
E neste enquadramento global e simultaneamente num século de afirmação progressiva do Feminino qual o valor acrescentado das Mulheres enquanto membros de uma Ordem de génese militar?
A Globalização tanto poderá encerrar em si um salto qualitativo para o desenvolvimento da Humanidade como uma armadilha conducente ao definhamento dessa mesma humanidade em que a “ética” reinante será a do poder. Neste cenário o poder controlará os recursos económicos e a comunicação e indubitavelmente aprisionará os valores inerentes à Solidariedade e Justiça pilares fundamentais da Liberdade, Fraternidade, Desenvolvimento e Amor princípios presentes desde sempre na génese Templária.
Simultaneamente, estes princípios que não são mais do que regras fundamentais para a preservação e desenvolvimento do Mundo, são legados de Maria – da “Bendita Maria” – inscrita na origem e protecção à bandeira Templária, ou – de Maria Madalena e Sarah a Madona Negra - a razão do Santo Graal, o grande tesouro Templário – símbolo da protecção à Terra e da sua fertilidade, num reconhecimento inequívoco do “Princípio Feminino”.
Certamente por isso e remontando á sua origem quis a Ordem Templária ter entre os seus um número considerável de mulheres de acordo com vários estudos entre os quais os do Centro de Abraxas, estando presente desde os primórdios da Ordem o “Princípio do Feminino” como tema de reflexão.
No momento actual para que o processo da Globalização se cumpra nas suas virtualidades – O equilíbrio da “Mãe Terra”, a valorização do “Homem” e o reforço da consciência do “Colectivo” – é fundamental o contributo de todos os que prezam a ética e os valores na sua verdadeira essência.

Os Homens e Mulheres Templárias, em paridade de pensamento e na sinergia das diferenças, reforçados pela cultura milenar da Ordem, encontrarão nas motivações actuais razão para a renovação do espírito de cruzada para que pelo exemplo e pela acção possam pró-activamente promover uma mudança de Atitude que, começando em Si se espalhe em ondas de contagio pela Sociedade, a favor de um “Todo Colectivo de Harmonia e Beleza onde a Liberdade e a Fraternidade sejam as Leis Maiores” – legado indelevelmente ligado à Ordem Templária.


Maria Perpétua Rocha

Ser Templário hoje - Contributo de Jorge Marques

A primeira e original missão dos Templários, era guardar os caminhos para se chegar ao Templo de Jerusalém!
Vejo hoje, na nossa Sociedade Global, que há duas coisas que o homem perdeu, o sentido do caminho que o leva ao Templo e a ideia do que é exactamente o Novo Templo!
Vejo hoje, que a descoberta do Templo já não é exterior ao homem, o Templo é cada um de nós, com o melhor que tem dentro de si. Entendo que as sociedades dos últimos tempos, voltaram o homem para fora de si mesmo, ao ponto de não se saber muito bem quem somos e para onde vamos…penso que é esta a principal missão dos Templários nos tempos de hoje…dar uma Visão às pessoas.
Uma nova relação com o Mundo, passará sempre pela forma em como cada um se relacionar consigo mesmo, pela forma em como tomar consciência de si. Não sei mesmo se a nova ideia será o da procura do Templo ou a de transportar o Templo para todo o lado…sendo o Templo!
Se assim for, os caminhos que levam ao Templo, aqueles que temos por missão guardar, serão as várias formas para que cada um descubra o que de melhor e mais valioso tem em si…os assaltantes do caminho são o conformismo, o absentismo, a incapacidade de lidar com a diferença, a perda da espiritualidade, a perda dos valores do sagrado feminino, a falta de coragem, a falta de autenticidade…estes são os inimigos que temos que combater em nós e disso dar consciência aos outros.

Em Portugal, ser Templário hoje, é fazer regressar este país aos seus valores originais, valores Templários…amar este país, garantir-lhe a sua individualidade, reconstruí-lo e reforçá-lo por dentro, para que a partir daí se possa voltar a abrir ao mundo e cumprir a sua Grande Missão que é…conciliar a matéria com o espírito, pacificar a relação do racional com o emocional…ser uma ponte entre o Norte e o Sul…o Oriente e o Ocidente…é voltar-se de novo para o Mar que não tem limites no horizonte…


Jorge Marques



domingo, 7 de março de 2010

Um pouco da história, antes de pensarmos o futuro - Contributo de Joffre Justino

Os Templários e o Rei Leproso

Os textos nascem muitas vezes de um momento de inspiração, mas, outras vezes, nascem de necessárias interrogações ou incomodidades.
Foi o que sucedeu com este, nascido por consequência de um filme, Kingdom of Heaven, surgido recentemente em Lisboa. Nele, os Templários eram apresentados como o puro exemplo da degradação moral, do baixo carácter, da cupidez, da estrita ânsia de poder.
Tal cerrada crítica levou me à busca de mais informação sobre aquele momento histórico, que, no fundo, tem a ver com os primeiros momentos da vivência secular dos Templários: Na verdade, era-me difícil aceitar que uma das raízes, a cavaleiresca, da Maçonaria, tivesse tido tão podres origens.
Na verdade, como refere Miguel Martin-Albo, em A Maçonaria Universal, “A lenda e as tradições maçónicas insinuam que alguns dos cavaleiros templários acabaram por se refugiar nas terras da Escócia, para onde teriam levado os segredos das técnicas da construção.”, (in obra citada, pág. 68, Bertrand Editora, Chiado 2005), o que tem servido de base, uma delas pelo menos, histórica, para a sustentação desta relação Templários/Maçonaria.
Assim, uma tão má imagem como a que apresenta o filme acima, dos Templários, sobretudo tratando-se dos primeiros anos desta Ordem, e mesmo tendo em conta a época e a envolvente histórica, daria, à Maçonaria também, não boas razões para aceitar as suas origens.
De facto, uma Ordem Militar Religiosa, nascida, nunca depois de 1118 estar, logo em 1175, pouco mais de cinquenta anos após o seu nascimento, apodrecida ao ponto do sugerido no referido filme, dificilmente, poderia originar, ou influenciar/ determinando-a, uma Ordem como a Maçonaria, a Operativa, capaz de se dedicar durante séculos à Construção dos Templos cristãos, fornecendo aos mesmos tal carácter intimista e religioso.
Valia a pena, pois, antecipar, neste campo somente, uma investigação que tenho iniciada desde que me decidi a procurar entender as várias raízes que estruturam esta Ordem Iniciática que é a Maçonaria dos dias de hoje…
Assumo, no entanto, desde já, o como entendo que Jaime Cortesão tinha razão quando dizia, “as fontes do passado devem ser lidas à luz da cultura geral que as ditou e dos interesses confessados ou ocultos, que podiam mover a pena do autor e obrigá-lo a deformar ou a calar a verdade”, (citação da obra de Jaime Cortesão, Os factores Demográficos na Formação de Portugal, retirada de Dos Templários à Nova Demanda do Graal, Paulo Alexandre Loução, Esquilo, 3ª edição Junho de 2005, pág. 226).

1. Breves notas sobre a Fundação dos Templários…

Os Soldados Pobres de Jesus Cristo, ou os Cavaleiros do Templo de Salomão, os Templários enfim, têm à volta da sua origem um significativo invólucro lendário que não ajuda muito, diga-se à compreensão do mesmo.
Nascidos entre uma gesta medieval, um apelo forte à religiosidade cristã e no combate a uma outra forma de ver a Deus, o islamismo, entre o findar da I Cruzada segundo uns, ou mesmo estando de certa forma na origem do surgimento desta Cruzada por via de alguns dos seus Fundadores, segundo outros, e integrando-se no processo de estabilização do reino cristão nascido com a conquista de Jerusalém, não seria de outra forma que poderiam vir a serem vistos séculos depois, senão envolvidos nas lendas que nascem sempre, em tempos onde interagem elementos tão dispares como a Religião, a Conquista, a Luta pelo Poder entre um possível Poder Novo.
Ora, sendo os Templários, para não poucos Maçons, como sabemos, uma das pedras que permitiram fazer nascer a Maçonaria, e estando ainda, os Templários na raiz deste espaço que hoje se autodenomina CPLP, e sendo eu um dos filhos desta Diáspora Portuguesa, já desaparecida, mais razões eu tinha para esta busca que faço, em volta desta Lenda que é real, que são os Templários.
Não vou, por isso, prender-me demasiado com as razões que originaram e permitiram este movimento espiritual, religioso, social e militar, que foi a I Cruzada. Basta-me, para já, recordar como Urbano II apelou a tal Gesta, “Levantai-vos e, em vez de manchardes as armas com sangue fraterno, utilizai-as contra os inimigos da Fé cristã. Se amais as vossas almas, preparai-vos, sob a chefia de Cristo, para a defesa de Jerusalém. Todos os que vos tornastes réus dos delitos que dilaceram o reino de Deus, obtende o resgate por este preço. Deus o quer…”, (in, História dos Papas, pág. 218, Editorial A.O., Braga, Janeiro de 2005, 2ª edição).
Prefiro começar recordando que entre 7 de Junho de 1099 e 15 de Julho, em cinco semanas de cerco, a Cidade Santa, Jerusalém, foi tomada pelos cruzados, dizendo “a tradição que o facto ocorreu ao meio dia, hora da Crucificação, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 40, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa).
Na realidade, essa ocupação sucedeu entre uma autêntica chacina, entre tantas outras que ambas as partes vinham alimentando em nome da sua religião. Urbano II, o Papa que motivou e entusiasmou esta I Cruzada, como vimos, e que fora eleito em Março de 1088, não teve conhecimento desta vitória, pois morreu 15 dias depois da mesma, “antes portanto da notícia poder alcançá-lo”, sendo que a abençoaria certamente, como tinha já perdoado todos os pecado inerentes a esta Cruzada, ao momento de a incentivar.
Estamos, à época, em tempos outros que não os de Bush, pai ou filho, e o espaço era conquistado, a palmo e a ferro e fogo, entre islâmicos e cristãos, as duas grandes potências de então, nada havendo de anormal, para os conceitos da época, nestas chacinas vividas entre combates, ocupações, retiradas e novos combates.
Na sequência desta vitória Godofredo de Bulhão, duque da Baixa Lorena, “foi eleito por voto popular, defensor do Santo Sepulcro”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 40, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa), tendo recusado ser Rei de Jerusálem pois, “não seria justo, declarou, usar uma coroa real na cidade onde Jesus usara espinhos”, (idem acima).
Não é bem esta a versão de autores como Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, em O Sangue de Cristo e o Santo Graal, (Editora Livros do Brasil, pág. s 147/148, Junho de 2004, Lisboa).
Segundo estes autores,”Em 1099, imediatamente após a captura de Jerusalém, um grupo de figuras anónimas reuniu-se num conclave secreto. A identidade deste grupo iludiu todas as investigações históricas – embora Guillaume de Tyre, escrevendo três quartos de século mais tarde, informe que o mais importante entre eles era “um certo bispo da Calábria”. Seja como for, o objectivo desta reunião era claro – eleger o rei de Jerusalém. E, apesar de uma reivindicação persuasiva por parte de Raymond, conde de Toulouse, os misteriosos e obviamente eleitores ofereceram prontamente o trono a Godofredo de Bulhão. Com uma modéstia nada característica, Godofredo declinou o título, aceitando em vez disso o de “Defensor do Santo Sepulcro”. Por outras palavras, era rei em tudo menos no nome.”
Mais à frente regressaremos a estes personagens “influentes”…. já que esta decisão não ter sido pelo voto popular e sim em conclave de pessoas anónimas, mas influentes, não deixa de ser importante, ainda que, considerando mais uma vez a época onde nos situamos, bem natural.
Na realidade, realce-se que esta I Cruzada, feita após o desastre da sua linha de frente, denominada também por Cruzada Popular, liderada por Pedro o Eremita, teve lideres como Godofredo de Bulhão, Bohémond, o príncipe normando de Tarento, Raimundo conde de Tolosa e St Gilles, Ademar, bispo de Le Puy, o legado papal desta Cruzada, e Roberto da Normandia, filho de Guilherme o Conquistador, Roberto da Flandres, e Estêvão de Blois, genro de Guilherme o Conquistador, todos eles certamente pouco anónimos.
Godofredo de Bulhão, de qualquer forma, morreu um ano depois de ter recebido o título acima referido e perante a sua morte, o cargo é assumido pelo seu irmão Balduíno, que foi, já, coroado como Balduíno I, Rei de Jerusalém, certamente em uma cerimonia ritual que, entretanto, não surge descrita.
Balduíno I foi “o verdadeiro arquitecto”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 40, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa), deste novo reino cristão, tendo morrido em 1118, a 2 de Abril.
Stephen Howarth entende que “é possível que tenha sido a sua morte que instigou a decisão dos cavaleiros”, (in obra acima, pág.41), que se propuseram criar a Ordem dos Soldados Pobres de Jesus Cristo, nascida com o propósito de “proteger peregrinos em viagem”, (idem acima, pág.42).
Manoel Arão, em A Legenda e a História Na Maçonaria, (Madras Editora, São Paulo, Brasil, 2004, pág. 205), segue a linha de Stephen Howarth, referindo que “A este tempo se formava em Jerusalém uma sociedade que se tornou famosa pela excepcional coragem…Queremos nos referir à ordem do templo ou templários..que foi fundada no ano de 1118…que tinham ido à conquista da Terra Santa, tivera por motivo socorrer, defender e proteger os peregrinos que visitavam o túmulo de Jesus. A fé religiosa era tão ardente nessa época que sempre chegava às raias do fanatismo”.
O livro Historia dos Papas, acima citado, recorda-nos, entretanto, que “Com esta primeira Cruzada encontra-se relacionada a instituição de duas novas Ordens religiosas, em moldes diferentes : a dos cavaleiros de S. João de Jerusalém, designada posteriormente por Ordem de Malta e a dos cavaleiros do Templo…A primeira, fundada por Gerardo de Tenque, seria aprovada por Pascoal II, em 1113, com o fim de prestar assistência aos enfermos e peregrinos, e posteriormente, também de defender pelas armas os Lugares Santos; a segunda fundada por Hugo de Payens, além dos votos religiosos, teria a mesma finalidade protectora dos Lugares Santos…vindo-lhe o nome do facto de ter como primeira sede um edifício que, segundo se cria, fora fundado sobre as ruínas do Templo de Salomão”, (pág. 219).
O livro A Verdadeira História dos Templários, de Michel Lamy, ( Casa das Letras, 5ª edição, fev. 2005, pág. 19), recorda-nos ainda o surgimento, em 1112, da Ordem dos Irmãos Hospitalários Teutónicos.
Existem, pois, três Ordens religiosas criadas quase ao mesmo tempo, e no mesmo ambiente, o que releva,
antes do mais, um método de trabalho, o de permitir a agregação de pessoas, por interesses específicos, evidentemente relacionados com as razões da guerra e da ocupação de uma região especial, Jerusalém, além de, claro corresponder a uma cultura da época.
De facto, é após a queda do Império Romano do Ocidente que nasce, por entre a desagregação das estruturas que este Império clara, esta noção de sociedades cavaleirescas que, segundo Paulo Alexandre Loução são a sequência da “ideologia indo europeia das três funções – sacerdotal, guerreira e produtora…No centro da pirâmide estão os homens de prata, interiormente guerreiros e idealistas, que asseguram a função guerreira e a manutenção dois valores. Buscam a honra e têm como virtude específica a coragem”, (Dos Templários À Nova Demanda do Graal, Esquilo, 3ª edição, Junho de 2005, pág. 87).
Regressando aos nossos Templários, seriam oito os cavaleiros de origem: Hugo de Payens, natural de Champagne, com 48 anos à data e à 22 anos “a leste de Constantinopla”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 42, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa), Godofredo de St Omer, flamengo, Payen de Montdidier, Archambard St Agnam, André de Montbard, Godofredo Bisol, (ou Bisot), e, “mais dois homens de que só há registo dos nomes próprios: Rossal, ou Rolando, e Gondemare. A tradição diz que ao principio esta irmandade contava com nove membros, mas a tradição não diz o nome do nono”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 42, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa).
Michel Lamy na obra também denominada A Verdadeira História dos Templários, ( Casa das Letras, 5ª edição, fev 2005, pág. 26), acrescenta-nos alguma informação, interessante, ainda que um pouco confusa nas datas, sobre estes fundadores desta Ordem, “Para além de Hugues de Payns, encontramos Geoffroy de Sant-Omer, um flamengo; André de Montbard, nascido em 1095 e tio de São Bernardo pela sua meia-irmã, Aleth. Havia também Archambaud de Sait-Aignan e Payen de Montdidier, (por vezes designado pelo nome de Nirvard de Mondidier), ambos flamengos. E, depois, Geoffroy Bissol, sem dúvida originário do languedoc e Gondomar, que talvez fosse português. Por fim, um tal Roral, ou Rossal, ou Roland, ou ainda Rossel, de quem nada mais sabemos, e um hipotético Huhues Rigaud, que teria sido originário do Languedoc”.
Gondmare, ou Gondomar, não seria, dada a época, certamente português, ao contrário do afirmado pelo autor acima. De facto, como sabemos, o Reino de Portugal nasce com o Tratado de Zamora.
Ora este resultou de um processo conflitual que este pode ser apresentado tal como o refere a Wikipédia, “O Tratado de Zamora foi o resultado da conferência de paz entre Afonso Henriques e o rei Afonso VII de Castela e Leão, a 5 de Outubro de 1143, marcando geralmente a data da independência de Portugal e o início da dinastia afonsina. Vitorioso em Ourique, em 1139, Afonso Henriques beneficiou da acção desenvolvida, em favor da constituição do novo reino de Portugal, pelo arcebispo de Braga, Dom João Peculiar. Este procurou conciliar os dois primeiros e fez com que eles se encontrassem em Zamora nos dias 4 e 5 de Outubro de 1143, com a presença do cardeal Guido de Vico.”.
Mas poderá, Gondmare, ou Gondomar, ter sido, possivelmente, um cavaleiro do Condado Portucalense que, teria aderido à I Cruzada como meio de atacar, a Sul, quem o atacava nas suas terras. Tal, a ser verdade, poderá justificar, ainda mais, a importância dos Templários no nascimento de Portugal e, em sequência, no movimento da Expansão Portuguesa.
Aparentemente foi Balduíno II, o novo rei, que entendeu a vantagem desta nova Ordem. Se eram poucos, na verdade tinha todos uma importante base de partida –eram todos combatentes e leaderes, adicionavam a tal a vantagem de sendo militares se davam a Cristo, mas, certamente entre eles tinham algo de comum e que não era de somenos importância, relacionavam-se com Bernardo de Clairvaux, um dos lideres espirituais cristão mais importantes da época.
Terá sido essa, uma das razões, pelo menos, de Balduíno II lhes ter dado como primeira acomodação um local cheio de mística – um edifício perto da Cúpula do Rochedo, “no local onde se supunha ter sido o Templo de Salomão”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 42, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa), outra das razões para muitas das lendas que envolvem os Templários.
Mas o livro de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, obriga-nos a regressar um pouco atrás, pois introduz alguma informação adicional que complica esta fundação dos Templários.
De facto estes autores, por via da investigação que fizeram em volta do Priorado de Sião, relatam que Godofredo de Bulhão terá criado uma Ordem, “oficial e devidamente constituída –a Ordem do Santo Sepulcro”, (in, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, pág. s 145, Junho de 2004, Lisboa), e os autores, por extrapolação, baseados em outros documentos assumem a criação da ordem do Sião, “ A comunidade assumiu o nome duplo de Sainte-Marie du Mont Syon et du Saint-Esprit. E outro historiador, escrevendo em 1689, é ainda mais explicito: Havia em Jerusalém durante as Cruzadas…cavaleiros ligados à Abadia de Notre Dame de Sion, que assumiram o nome de Chevaliers de l’Ordre de Notre Dame de Sion”, (in obra acima, pág. 145).
Segundo estes autores, poderia ser possível que o atrás referido conclave tenha tido como base os “monges de Orval – incluindo talvez Pedro o Eremita que estava na Terra Santa nessa altura e gozava de considerável autoridade?”. Com tal os autores acima pretendem dar uma linha de coerência ao desenvolvimento de vários movimentos, espirituais, sociais, que se conjugaram na I Cruzada, como acabam por pretender, também, dar elementos de credibilidade a esta Ordem do Sião, nascida, nesta perspectiva, em volta de um grupo religioso gnóstico que envolvia, ou se relacionava, de certa forma, com Godofredo de Bulhão.
No entanto, é verdade que Pedro o Eremita, por si só, sem um grupo religioso por detrás, não teria tanta oportunidade de ter dinamizado a Cruzada Popular e, ao criá-la, ter-se-á tornado, sem dúvida, uma figura incontornável.
Na verdade, não podemos de forma alguma enjeitar o que nos recorda António Telmo, “A existência de organizações secretas no mundo medieval é reconhecida unanimemente pelos historiadores, embora divirjam quanto à importância a atribuir-lhes no plano histórico. Uns consideram a sua influência decisiva, enquanto que outros nem sequer se lhes referem quando procuram determinar as causas dos acontecimentos.”, ( in, Dos Templários à Nova Demanda do Graal, obra já citada, que se refere a História Secreta de Portugal, de António Telmo).
Mais, segundo estes autores, “Se a Ordre de Sion foi de facto responsável pela eleição de Godofredo de Bulhão, então Balduíno, o irmão mais novo de Godofredo, teria ficado a “dever o trono”, à sua influência…Em 1117, Balduíno era um homem doente, cuja morte estava manifestamente iminente. É portanto possível que os templários estivessem activos, embora numa capacidade ex officio, muito antes de 1118 – como, digamos, braço militar ou administrativo da Ordre de Sion, alojada ba sua abadia fortificada. E é possível que o rei Balduíno, no seu leito de morte, fosse compelido –pela doença, pela Ordre de Sion ou por ambas – a conceder aos templários algum estatuto oficial, a dar-lhes uma constituição e a torná-los públicos.” (in obra acima pag. 149).

2. O Santo que abençoou os Templários – Bernardo de Clairvaux

Oito anos depois do nascimento formal da Ordem os Soldados Pobres de Jesus Cristo, dois dos seus fundadores, André de Montbard e Gondemare foram visitar, propositadamente, um pequeno mosteiro sediado na França Setentrional, onde liderava Bernardo de Clairvaux, sobrinho de André Monbard. Este monje era, como já se disse, um importante líder espiritual cristão.
Filho do senhor de Fontaines, Bernardo de Clairvaux decide, aos 22 anos, entrar para uma Ordem bastante austera, no mosteiro Cister, liderando 29 outros jovens e abrindo, três anos depois um terceiro mosteiro, onde ele foi já abade.
Curiosamente, quem cedeu o terreno para a construção deste terceiro mosteiro, uma construção de raiz feita pelos monges, foi Hugo conde de Champagne, cavaleiro que em 1126 aderiu à pequena Ordem dos Soldados Pobres de Jesus Cristo e com quem Bernardo de Clairvaux tinha uma forte amizade, reflectida, por exemplo, nesta carta que lhe enviou, “No entanto, juro que é uma triste provação para mim ser privado da vossa agradável presença…como poderemos esquecer a antiga amizade que demonstrastes à nossa Casa?...rezamos constantemente pelo ausente que não podemos ter entre nós”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 48, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa).
Várias circunstâncias, na verdade, (haverá acasos?), se juntavam à volta desta nova e pequena Ordem. André de Montbard era tio materno de Bernardo, Hugo, conde de Champagne, era amigo pessoal dele e, finalmente, Balduíno II necessitava de atacar Damasco e precisava, como pão para a boca, de mais apoio e homens da cristandade europeia.
Se outras razões não existissem estas eram mais que suficientes para que se justificasse a viagem de André de Montbard e Gondmare para visitar um dos lideres espirituais centrais da cristandade de então e dele obter apoio para o crescimento da Ordem, assim como para a causa de Balduíno II.
Este, claro, fizera os viajantes serem acompanhados de uma carta para Bernardo de Clairvaux, onde se pode ler, “…Os irmãos Templários, que Deus criou para a defesa da nossa província e a quem concedeu especial protecção, desejam receber aprovação apostólica e ter a sua própria regra de vida…como conhecemos bem o peso da vossa intervenção junto de Deus e também do seu Vigário e de outros príncipes da Europa…”(idem acima pág. 48). Fica pois nas mãos de Bernardo Calirvaux a possibilidade de obter para 2 causas que se interligavam, o apoio fundamental para que o seu desenvolvimento se concretizasse.
Por influencia de Balduíno II, com Hugo de Payens como mestre dos Soldados Pobres de Jesus Cristo e com dois cavaleiros, um que lhe era tão próximo, este líder espiritual pacifico acedeu a tornar-se no paladino dos Templários junto de quem influenciava e, como refere Stephen Howarth, “unir as virtudes da adoração e da guerra”, (idem acima pág. 49), foi, certamente para Bernardo de Clairvaux a oportunidade, se calhar desejada intimamente, de conciliar o espírito guerreiro de seu pai, com o espírito particularmente religioso da sua mãe, incentivando esta nova Ordem.
Assim, Bernardo de Clairvaux conseguiu que a 13 de Janeiro de 1128 se reunisse, a mando do Papa Honório II, na catedral de Troyes, um Concilio onde se debateria esta solicitação dos Templários. Não deixa de ser interessante que Troyes era perto de Calirvaux e da cidade natal de Hugo de Payen, relevando as coincidências que os autores de O Sangue de Cristo e o Santo Graal tanto acentuam…
Coube a este nobre a defesa, no Concílio, das intenções dos Templários e os conciliares aceitaram, certamente por consequência da forte influencia de Bernardo de Clairvaux, as “três necessidades desesperadas da irmandade, para poder continuar o seu trabalho : a bênção e o reconhecimento da Igreja, uma regra para governar as sua vida quotidiana e auxílio prático, sob a forma de dinheiro e homens”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 52, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa).
Nasceu desta forma a regra dos Templários, pelo menos fortemente influenciada por Bernardo de Clairvaux, com setenta e dois artigos que cobrem, “de admoestações de ordem religiosa geral à dieta diária dos cavaleiros”, (idem acima), e organiza a Ordem nas “linhas características da sociedade feudal”, (idem acima), com um mestre, um estandarte, (fundo branco com uma cruz preta), o senecal, o marechal da Ordem, (o seu comandante supremo militar), o roupeiro, os cavaleiros, os irmãos sergentes.
Na verdade, em La Revelación de Los Templários, obra de Lynn Picknett e de Clive Prince, (Ed. Martinez Roca, 7ª edição, Setembro de 2004, Espanha, pág. 107), podemos ler que, “Foi o próprio Bernardo quem escreveu a Regra dos Templários, baseada na dos monjes de Cister e um pupilo dele, depois de coroado Papa como Inocêncio II, estabeleceu em 1139 que daí em diante os Templários só obedeceriam à autoridade do Sumo Pontífice”, ainda que outros autores refiram que as Regras dos Templários tenham sido escritas na sua 1ª versão pelo menos pelo Patriarca de Jerusalém.
Bernardo de Clairvaux foi, de qualquer forma, “o verdadeiro chefe do Concilio. Muitos dos membros do Concilio conheciam-no pessoalmente e os poucos que ainda o não conheciam admiravam-no e respeitavam-no”, (idem acima, pág. 50).
Será possível imaginar que tão influente homem, um Santo da Igreja Cristã, líder de um Concilio, estar relacionado com a Ordre do Sion, como referem os autores de O Sangue de Cristo e o Santo Graal, ainda que em tom de pergunta, “Poderia realmente a Ordre de Sion estar por trás de São Bernardo e dos templários?”, (in obra citada acima pág.151)? Um grupo religioso cátaro/gnóstico? Ter-se-á, em alternativa, assistido a uma utilização de Bernardo Clairvaux neste movimento de constituição de uma Ordem militar e religiosa, capaz, como foram os Templários, de influenciar tão significativamente a Igreja Cristã e os senhores da época? Teremos vivido com este processo a um, mais um, dos movimentos de luta pelo Poder no seio da Hierarquia da Igreja?
Recordemos que não se pode negar que, segundo a generalidade dos autores, tanto os Templários quanto a Ordem de Cister se desenvolveram significativamente e quase que em paralelo, relevando a importância de Bernardo de Clairvaux na sua época.
Não trataremos estes temas acima neste texto. Mas não resisto a deixar estas questões para futuras reflexões…

3. O Rei Leproso

Balduíno IV ascende ao cargo de Rei com 13 anos, por morte de Amalrico, a 11 de Julho de 1174. Coincidentemente, o Califa xiita do Cairo morre também, sucedendo-lhe “um rapaz de 11 anos”, (in, A Verdadeira História dos Cavaleiros Templários, Stephen Howarth, pág. 131, Editora Livros do Brasil, Janeiro de 2004, Lisboa).
No entanto, “…o novo Rei do Egipto era Saladino de 37 anos e ávido de êxito”, (idem acima pag. 131), sendo ele, pois, à partida a peça forte e dinâmica do teatro que se seguiria.
Balduíno IV era ainda por cima realmente doente, “segundo Fuller da lepra chamada elefantíase, nociva para o paciente, mas não contagiosa para a sua companhia, contudo mortal”. Assim, os senhores da guerra cristãos passaram desde 11 de Julho de 1174 a conviver com um Rei que assumiam como a prazo curto, isto é, conviviam com um tempo sem Poder central.
Ora, perante esta constatação, a existência, do lado cristão de um Rei a prazo, as restantes peças foram-se posicionando considerando esta dramática realidade e, em particular Saladino que Stephen Howarth assume como as mandíbulas do leão que se fechavam lentamente “à volta do Reino Santo”, (in obra citada).
Na Europa, entretanto, o ambiente face a este novo Reino Cristão era de crescente descrença quanto ás suas virtualidades, tendo-se perdido o sentido de religiosidade à medida que o tempo passava, pois “Os ocidentais iam à procura de um mundo que os francos do Oriente sabiam já não existir”, (in obra citada), pois o que se vivia nesse Reino não era já o tempo da vivência religiosa e fanática dos primeiros momentos da I cruzada, a conquista sobre o Islão.
Vivia-se sim uma desesperada luta pela sobrevivência, pois os interesses instalados, desde 15 de Julho de 1099, há já 86 anos, tinham gerado novas elites que, com espaços próprios conquistados preferiam mantê-los a todo o custo e não buscavam novas aventuras militares.
Tal ambiente era, pois, pouco propicio à conquista de devotos capazes de combater o Islão e tais devotos iam, dia após dia, escasseando.
Em acréscimo, um Rei de 13 anos exigira um Regente e esse cargo fora ocupado por Raimundo de Tripoli, que, seguindo a linha da sobrevivência, apoiado pelos interesses dos novos senhores e pelos Hospitalários, “tentou estabelecer relações pacíficas com os muçulmanos que os cercavam”, (in obra citada).
Opondo-se-lhe estavam, precisamente, os Templários, por um lado e, por outro, o pirata do Reino, Reinaldo de Chatillon, um aventureiro que em Fevereiro de 1175 acabara de ser libertado de um cativeiro islâmico, de 15 anos.
Nos tempos da regência pouco aconteceu de facto, para além do posicionamento, no terreno, destas peças do xadrez local e, assim, em 1177, Balduíno IV, o leproso, assumiu o cargo de Rei.
Mal tal sucedeu, teve a oportunidade de mostrar que, em outras circunstâncias de saúde, não era um incapaz.
Assim, entre movimentos militares vários, que inicialmente apontavam para um ataque islâmico em Gaza, imediatamente protegida pelos Templários, o Rei Balduíno IV, confrontado com uma ataque directo de Saladino a Jerusalém, reuniu as forças militares que tinha, incluindo os Templários, e, com centenas de cristãos derrota “26000 sarracenos a cavalo”, (in obra citada), mostrando no combate a sua garra.
Citando de novo Stephem Howarth, “O jovem Rei, com as mãos envoltas em ligaduras, cavalgou na vanguarda do ataque cristão – com S. Jorge a seu lado, segundo se disse, e a Verdadeira Cruz a brilhar tanto como o Sol…o certo é que se tratou de uma vitória quase inacreditável, um eco dos tempos da I Cruzada”, (in obra citada).
No entanto nem esta vitória deu ânimo a uma previsível e não acontecida nova Cruzada, recusada por Luis VII de França e Henrique II de Inglaterra.
O Reino de Jerusalém estava, cada vez mais, abandonado a si próprio, cercado por interesses múltiplos e por estratégias várias, que entre si conflituavam também.
Em 1179 os Templários procuram ocupar mais espaço. Assim, iniciam a construção de mais um castelo, entre uma, mais uma, trégua, o castelo de Chastelet e, em face de uma evidente má apreciação de forças, a 10 de Junho de 1179, Saladino vinga-se da derrota anterior castigando fortemente os cristãos, sendo que é por um triz que o próprio Rei Balduíno IV não é capturado.
No entanto, o erro dos Templários é pago com a prisão do seu Mestre, St Armand. Como refere Stephen Howarth, “Nem sequer eles o negaram, pois tinham-se lançado na batalha à primeira vista do exercito muçulmano, antes do exercito real estar preparado e tinham sido repelidos para trás, para cima dos outros cristãos, pelo contrataque muçulmano: Temeridade, bravata, derrota; o rei e o primeiro senhor do reino salvos por um triz; o mestre do Templo no cativeiro. Os Templários tiveram grandes culpas em Marj Ayun”, (in obra citada do autor, pág. 137).
De notar que os Templários são especialmente alvo de forte reprimenda papal nesse ano,””Soubemos que os irmãos do Templo…excederam os privilégios que lhes foram concedidos pela Santa Sé e têm a presunção de fazer muitas coisas que causam escândalo entre o povo de Deus e são penosas para as almas…Proibimo-los portanto de receber igrejas e dizimas das mãos de leigos sem o consentimento dos seus bispos; devem evitar os que estão excomungados e interditados por nome; nas igrejas que lhes não pertencerem por direito devem deixar aos bispos a instalação de padres; não devem, sem consultare o bispo, retirar aqueles que foram instalados e se forem a uma igreja sob interdição so devem ser admitidos uma vez por ano para lá efectuarem o serviço e mesmo então não lhes é permitido enterrar lá os corpos dos que se encontrem sob interdição”, (in obra citada do autor, pág. 137/8).
Vê-se pois, por este texto, que os Templários teriam ido para além do estabelecido nas suas regras e que, por tal, estavam sob vigilância do Papa. Um Papa que, aliás, “era um dos maiores apoiantes do Templo”, (in obra citada, pág 138).
Com um novo Mestre, Arnaldo de Torroge, mas seguindo uma linha tradicional, ainda que condimentada por uma boa dose de humildade, os Templários acabam por criar uma nova alteração na relação de forças internas aos cristãos, estabelecendo um tratado, ainda ao tempo de St Armand, mas desenvolvido já pelo novo Mestre, com os seus aguerridos adversários, os Hospitalários.
Esse tratado, “”terminava, voluntária e irrevogavelmente, todas as controvérsias nascidas entre as 2 ordens, tanto aqui como alem mar, sobre as nossas terras, dinheiros e varias possessões”, (in obra citada, pág. 138).
Desta forma, o lado que privilegiava a negociação permanente com os islâmicos ficou composto somente pelo conde Raimundo de Tripoli, antigo Regente, e pelos novos senhores do reino de Jerusalém, enquanto que o lado que privilegiava o conflito se alargou aos Hospitalários com este novo tratado.
Ainda assim, em 1180 Balduino IV estabelece um, mais um tratado de paz com Saladino, para durar dois anos. Mas, mais uma vez o pirata Reinaldo de Chatillon faz das suas e rompe o tratado, atacando “uma grande caravana muçulmana a caminho de Meca…Em 1181 apreendeu as mercadorias de toda a caravana. Saladino exigiu a devolução das mercadorias ou uma compensação; Reinaldo recusou sem rodeios e o pobre Balduíno, quase cego, confinado ao leito e incapaz de assinar sequer o seu nome não pôde fazer nada.” (in obra citada, página 139).
Durante mais cinco anos os acontecimentos foram-se sucedendo, todos encaminhando-se para um fim que só poderia ser trágico.
Reinaldo de Chatillon, ainda fez das suas, inventando uma frota naval que afectou durante um ano o mar Vermelho onde “os barcos de Reinaldo foram senhores”, (in obra citada, pág. 140), tendo saqueado Aidib, o principal porto núbio, incendiado todos os barcos do porto de Medina, chegaram a ar-Raghib e mesmo a Adem.
Mas no Verão de 1183 a frota de Reinaldo era assunto arrumado para Saladino e, por outro lado este senhor islâmico com um domínio que se estendia “da Líbia a Adem e ao Tigre, um imenso triângulo muito maior do que todos os estados cruzados juntos jamais tinham sido”, in obra citada pág. 143), deparava-se com toda a oportunidade para se concentrar em Reinaldo de Chatillon e, claro, em Jerusalém.
Entre golpes palacianos em volta da Regência, onde os Templários e os seus aliados Hospitalários foram derrotados, Arnaldo de Torroge e o mestre Hospitalário são enviados para a Europa em busca de apoio, enquanto que Saladino continuava a sua senda contra Reinaldo, procurando destruir-lhe o castelo, Kerak.
Entre 30 de Setembro de 1184 e 16 de Março de 1185 morrem Arnaldo de Torroge e Balduíno IV, “libertado finalmente da sua lenta agonia”, (in obra citada pág. 145) sendo coroado Balduíno V, uma criança de sete anos. O conde Raimundo era de novo Regente e tenta um tratado de tréguas de 4 anos o qual, para espanto de todos é aceite por Saladino, que também se encontrava doente.
Quanto aos Templários, optam por eleger Gerardo de Ridefort, com contas velhas a ajustar com o conde Raimundo e, só por tal, uma péssima escolha.
Na sequência, e perante a morte também de Balduíno V, em Agosto de 1186, sucedem-se vários golpes palacianos e com eles Gerardo de Ridefort impõe, com um apoio reticente do Mestre dos Hospitalários, a coroação de Sibila irmã de Balduíno IV e do seu marido Guido de Lusignan, que já tivera o apoio de Arnaldo de Torroge.

4. A Queda de Jerusalém

Se Guido de Lusignan é apresentado no filme que deu origem a estas minhas investigações como um fraco, venal e incompetente líder militar, e todos os relatos que obtive nas minhas investigações o confirmam, o mesmo não se poderá dizer de Gerardo de Ridefort, Mestre dos Templários.
No entanto, se ele não surge como um corrupto, está, na verdade, pelas circunstâncias, aliado a um pirata louco e decadente, Reinaldo de Chatillon, como também se mantém aliado dos Hospitalários, naquela insane tentativa de gerir um estado militar expansionista sem qualquer apoio efectivo de retaguarda.
Assim, se ele ganha o golpe palaciano que coloca Guido de Lusignan como Rei de Jerusalém, só consegue, com tal, dividir ainda mais as hostes cristãs.
Daí que o conde Raimundo vá ao ponto de trair as mesmas, sendo que, em princípios de 1187, ele e Saladino assinem “um tratado particular em que Saladino garantia tornar Raimundo “rei de todos os Francos”…Raimundo sabia que a única possibilidade de sobrevivência do Outremer residia em conseguir uma paz o mais extensa e o mais duradoira possível”, (in obra citada pág. 148), pelo que optou por este acto de traição.
Enfim, estava destruído o espírito da I Cruzada.
No entanto, começava para mim a ficar também claro que o essencial dessa destruição residia no facto de, na Europa, já ninguém se interessar efectivamente pelo mesmo espírito de Cruzada, nem a ver naquela região qualquer interesse substancial.
E, como vimos, não se pode dizer que os Templários não tentaram manter esse espírito, como não se pode esquecer a viagem à Europa de Arnaldo de Torroge, no sentido de redinamizar um apoio essencial para a manutenção dos estados cristãos nascidos com a I Cruzada.
Gerardo de Ridefort, como novo mestre dos Templários, tentou impor uma expedição contra o traidor, inicialmente aprovada pelo Rei Guido, mas depois por ele abandonada surgindo como alternativa uma ainda mais vã e tola ideia, a de negociar com um traidor e, mais grave ainda, conduzir como negociador um dos que tentara a todo o custo impor o castigo, o Mestre dos Templários.
Tal tentativa só podia resultar em um desastre, como sucedeu. E o dia 29 de Abril de 1187 é a data que marca o inicio do fim do Reino Cristão de Jerusalém.
O conde de Raimundo estava já demasiado amarrado a compromissos com Saladino e se não encontrei informação suficiente para descrever a trama da traição, a verdade é que envolver uma negociação com uma passagem das forças militares de Saladino na região, em vez de a adiar definitivamente é forte indicio de traição, considerando as mentalidades da época.
De facto o conde Raimundo, aceita, no mesmo dia em que sabe que estarão em trânsito forças militares cristãs, que os seus territórios sejam trespassados por forças lideradas pelo filho de Saladino, contando que, só com um simples aviso de paragem, para se esconderem nas casas de aldeões e um vago compromisso de não serem molestados, as partes não se degladiariam entre si.
Claro que o conflito surgiu e o resultado não foi nada famoso para os cristãos. Na verdade, perderam, a 1 de Maio de 1187, 130 cavaleiros em combate tendo três ficado vivos, sendo um deles Gerardo de Ridefort, que, ainda por cima, era responsável parcelar pelo desaire por ter imposto um combate desigual entre 133 cavaleiros cristãos contra 7000 muçulmanos.
Aceleraram-se os acontecimentos, daí em diante. Raimundo regressou ás hostes cristãs, ou fez que tal, aceitando o Rei Guido, e os preparativos para um contenda final fizeram-se tendo como pano de fundo, entre cristãos, esta traição de Raimundo e o desaire havido um pouco “para além de Nazaré”, ( idem acima pag. 150).
Preparando-se para um combate que tenderia a ser final, os cristãos juntam 13000 homens, “dez mil infantes, cerca de dois mil homens de cavalaria ligeira e mil e duzentos cavaleiros”, (in obra citada pag.151), sendo que para esta força ambas as Ordens militares, Templários e Hospitalários entre eles, “contribuíram com tudo quanto puderam, mantendo apenas guarnições simbólicas nas suas fortalezas. Além disso, os Templários deram ao Rei Guido a parte deles dos fundos recebidos do rei Henrique II de Inglaterra…”, (idem obra citada pág. 152).
Mas, mais uma vez, chegado o momento do combate, Gerardo de Ridefort demonstra, em Hattin como antes, quão pouco estratega e quanto emocional era, impondo aos cristãos a escolha de um local de combate desfavorável. Mas fê-lo, note-se, tentando desesperada e cavalheirescamente salvar Tiberíade, o castelo e a cidade do conde Raimundo que se encontrava cercada e prestes a render-se, pois, segundo Gerardo, “ele e os seus irmãos preferiam vender os seus mantos brancos a deixar uma cidade cristã perder-se tão facilmente.”, (idem acima pág. 153).
Stephen Howarth, relata ainda que, “…não se sabe como, tão rapidamente como a chegada do alvorecer, Saladino calculou – ou soube – qual tinha sido a ordem do rei.Talvez verdadeiros traidores tivessem saído do acampamento de Guido durante a noite…os sarracenos mobilizavam-se e deslocavam-se dezasseis quilómetros para noroeste, directamente entre os Francos e Tiberiade. Pararam numa pequena aldeia chamada Hattin”, (idem acima pág. 153), sendo pois aí que se dá o combate, o que iria obrigar os cristãos a uma marcha forçada de vinte quilometros sob um sol ardente.
E o dia 4 de Julho de 1178 mostrou-se como sendo um autêntico desastre para os cristãos, sendo que os Templários pagaram bem caro. Nesse dia morreram duzentos e trinta templários, executados ou mortos em combate. Só de Ridefort foi poupado, juntamente com o Rei Guido, um grupo de barões e Reinaldo de Chatillon. De Ridefort e o Rei eram demasiado valiosos, como reféns, para morrerem; os barões podiam ser resgatados, e Saladino jurara matar pessoalmente de Chatillon”, (idem acima pág.156).
Depois deste desastre seguiram-se a rendição de Tiberiade, a queda de Acra, de Naplusa, de Jaffa, de Torón, de Sídon, de Beirute e de Ascalon, tudo entre 5 de Julho e 4 de Setembro de 1178.
A 20 de Setembro inicia Saladino o cerco a uma Jerusalém especialmente fragilizada e, “Em 2 de Outubro, aniversário da ascensão de Maomet ao céu, um cavaleiro templário chamado Terric escreveu a Henrique II de Inglaterra: “Infelizmente, Jerusalém caiu! Saladino ordenou que a cruz fosse arrancada do cimo do Templo do Senhor e durante dois dias transportada pela cidade e fustigada com varas. Depois disso, ordenou que o Templo do Senhor fosse lavado com água de rosas por dentro e por fora de alto a baixo””, (in obra acima pág. 158).
Dos Reinos Cristãos na Região restou somente Tiro pois, “No dia de Ano Novo de 1188, Saladino levantou cerco de Tiro e recuou com o seu exército para o interior”. (in obra acima pag. 159).

5.Quem traiu quem?

Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, em O Sangue de Cristo e o Santo Graal, acentuam, recordando os famosos Dossiers Secrets, que Gerardo de Ridefort foi um traidor, referindo, “Um ano antes, em 1187, Jerusalém fora perdida para os sarracenos – principalmente graças à impetuosidade e ineptidão de Gérad de Ridefort, Grão Mestre do Templo. O texto nos Dossiers Secrets é consideravelmente mais severo. Não fala da impetuosidade ou ineptidão de Gérard, mas da sua “traição” – uma palavra muito forte, na verdade. Não se explica em que consistiu esta “traição”. Mas, em resultado dela, diz-se que os “iniciados” do Prieuré regressaram en masse para França – presumivelmente para Orleães.”, (in O Sangue de Cristo e o Santo Graal, pág 153).
Dessa traição terá nascido a separação entre a ordem do Sião e os Templários, de onde nasceu mais uma lenda denominada o Corte do Ulmeiro, que não interessa, por ora relatar.
No entanto vale a pena referir que, depois de libertado, Gerardo de Ridefort, morre preso, já depois de ter sido libertado por Saladino, por troca do castelo de Gaza, quando acompanhando o seu Rei, Guido, a 4 de Outubro de 1189, e entre os combates para a conquista de Accra, é preso, nunca sendo libertado dessa sua ultima prisão.
Com ele enquanto Mestre, estiveram, no cerco a Accra, os Templários.
Terá a Ordem do Sião defendido a aliança do conde Raimundo com Saladino e, por isso, entendido que a posição de Gerardo de Ridefort, opondo-se-lhe, era uma traição a quem aparentemente liderava na retaguarda os Templários?
Terá sido Gerardo de Ridefort quem passou a informação às forças de Saladino das movimentações das forças cristãs, que originaram a derrota de Hattin?
Ou, muito simplesmente, o facto de Gerardo de Ridefort ter aceite manter-se vivo entre duas prisões, ter aceite trocar-se por bens e valores, terá sido suficiente para que esta Ordem de Sion o considere como traidor e imponha uma ruptura com os Templários, por estes terem, enquanto Ordem, algures, decidido manterem-se fiéis ao seu Mestre?
Nunca o saberemos.
No entanto é difícil, recordando o filme que originou estas reflexões, considerar tão mal uma Ordem que combateu até ao fim em prol dos Reinos Cristãos, que viu tantos dos seus morrerem em combate, em nome da Cristandade, mesmo que hoje tenhamos visões diferentes sobre esses tempos e essas Guerras Religiosas.
De facto, é mais honesto imputar responsabilidades do desastre do Sonho de uma Jerusalém cristã ter terminado mal a quem efectivamente o merece – tanto a Henrique II de Inglaterra quanto a Filipe Augusto de França.
Mantendo-se em permanente quase estado de guerra, entre si, acabaram por não cumprir a sua parte quando, em Outubro de 1187, Gregório VIII , ainda antes de saber da queda de Jerusalém, apelou a uma nova Cruzada, que so se concretizou com Ricardo Coração de Leão empurrou Filipe Augusto de França para a III Cruzada, já em Julho de 1190, três anos depois da batalha de Hattin.
O que se pode realmente assumir é que os Templários foram, durante estes primeiros quase 70 anos da sua vida sobretudo uma Ordem militar fortemente influenciada por uma ideologia expansionista cristã, mas, se calhar por isso mesmo, especialmente respeitada pelos seus adversários islâmicos, dada a enorme coragem dos seus membros, usualmente executados se perdiam em combate, como se viu acima.
Mais, nestes primeiros 70 anos, se foi possível ver uma forte repreensão papal à actividade Templária, onde se inclui o facto destes terem provavelmente aceite no seu seio “evitar os que estão excomungados e interditados por nome”, (in, A Verdadeira Historia dos Cavaleiros Templários, obra citada, pág.137/8), se foi possível ver erros militares graves e caucionadores de graves momentos para os exércitos cristãos, não é fácil ver nos Templários venalidade, corrupção e degradação moral.


Joffre Justino